Ceará precisa de maior monitoramento do encalhe de tartarugas, dizem especialistas

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O interesse do setor público com a causa está crescendo nos últimos anos. Em 2020, 53 tartarugas foram encontradas em praias do litoral cearense monitoradas pela Petrobrás; apenas três delas estavam vivas

A falta de monitoramento do encalhe de tartarugas e outros animais nas praias do Ceará é um problema que preocupa especialistas. A carência de ações sistemáticas para acompanhar a razão da causa da morte dos animais, assim como quantificar o número de animais que acabam indo a óbito na costa do Estado pode dificultar a ciência da real dimensão dos problemas, conforme explicam pesquisadores consultados pelo O POVO.

Na última semana, a reportagem recebeu uma denúncia de que tartarugas mortas estariam aparecendo com maior frequência na praia do Porto da Dunas, no município de Aquiraz, Região Metropolitana de Fortaleza. A partir daí, buscamos diversos projetos e órgãos oficiais para obter os dados, mas nenhum deles conseguiu dimensionar com estatísticas se isso realmente estava acontecendo ou era apenas uma percepção, por que a praia está sendo mais frequentada, por exemplo.

O resultado da pesquisa para esta matéria foi a descoberta de uma ave que morreu na praia do Porto das Dunas no início do ano de 2020, conforme estatística levantada pelo Sistema de Informação de Monitoramento da Biota Aquática (Simba). O repositório é um iniciativa da Petrobrás para avaliar possíveis interferências das atividades da empresa na área abrangida pelo projeto. São monitorados os tetrápodes marinhos (aves, tartarugas e mamíferos marinhos).

A bióloga Alice Frota Feitosa, coordenadora voluntária do Projeto GTAR do Instituto Verdeluz, pondera que não existe um monitoramento incisivo das praias cearenses. “Não temos como a afirmar se as tartarugas realmente estão encalhando mais ou se o que tá acontecendo é que as pessoas estão ouvindo falar mais de tartarugas”, explica. “A gente fica muito à mercê das pessoas que se atentam às tartarugas nas praias”, continua a pesquisadora.

No total, 53 tartarugas foram registradas pelos no Simba em praias cearenses em 2020, sendo somente três delas ainda vivas. A estatística é significativamente inferior ao registrado em 2019, quando o número de tartarugas encontradas chegou próximo a 200 animais, dois deles vivos. São monitoradas pelo sistema as praias de Icapuí, Fortim, Cascavel, Beberibe, Aracati e Aquiraz.

Caroline Feitosa, professora do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da Universidade Federal do Ceará (UFC), também reclama da falta de monitoramento no Estado e considera que a intensificação das buscas ajudariam a entender os impactos que acometem a fauna no litoral cearense. “Quanto mais a gente monitorar, maior a possibilidade de a gente encontrar os animais recém-mortos, ficando mais provável a gente inferir sobre a causa da morte”, defende.

A especialista explica que por se tratar de um trabalho voluntário, conduzido em sua maioria por alunos universitários, o resgate do animal pode demorar em certas ocasiões. “Quanto mais rápido a gente faz essa recuperação, maiores as chances do animal conseguir sobreviver, se recuperar… Às vezes eles encalham já tá tão debilitados, que quando são resgatados acabam morrendo”, explica.

Interesse do setor público é crescente com a causa, ponderam pesquisadores

Uma iniciativa enfatizada pela bióloga Alice Frota é o primeiro quarentenário do Ceará para tartarugas marinhas, que deve ficar pronto ainda neste ano. Em parceria com o VerdeLuz, Labomar e o Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA), a Secretaria do Meio Ambiente do Estado (Sema) está construindo um centro de atendimento emergencial para tartarugas encalhadas.

Além desse equipamento, Frota acredita na possibilidade de fazer uma parceria com os governos municipais litorâneos, como forma de expandir o monitoramento em todo o Ceará. “Não temos pernas para dar conta de um monitoramento desse tamanho porque somos todos voluntários. Na parceria com as cidades poderíamos ter uma resposta mais concreta sobre a quantidade de encalhes a depender do local do estado”, frisa.

A professora Caroline Feitosa reforça que a parceria com a Sema, em Fortaleza, é “importantíssima” e um bom sinal de que a situação pode melhorar com a participação do setor público. “O monitoramento precisava ser mais intensificado, tanto no litoral leste como no oeste”, aponta.

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