Um ano após óleo, estudo em quatro praias aponta perda de 80% da biodiversidade

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Pesquisa focada em áreas de proteção ambiental na Bahia também identificou que quantidade de corais doentes aumentou de 5% do total para 85%; densidade de organismos por metro quadrado de praia caiu 83%

Um estudo liderado pelo professor Francisco Kelmo, diretor do Instituto de Biologia da UFBA, aponta que os impactos da chegada das manchas de óleo na costa brasileira pioraram em 2020. “O dano foi imenso. Esperávamos observar, em 2020, alguma melhora. Só que isso não aconteceu”, lamenta. “Uma situação de desequilíbrio biológico grave já se instalou.”

“Antes da chegada da mancha de óleo, nós tínhamos biodiversidade de aproximadamente 88 espécies a cada 35 metros quadrados de praia. Em outubro, quando o óleo chegou nas quatro praias que monitoramos, esse número caiu para 47. Em 2020, voltamos para as praias em março, maio e julho. Nos três retornos, o número de 47 havia reduzido para 17″, destaca. “É uma perda de biodiversidade em torno de 80%.”

As amostras foram retiradas das quatro áreas de proteção ambiental que o instituto monitora desde 1995. No caso da densidade, por exemplo, até outubro de 2019, havia uma média de 446 organismos vivos a cada 35 metros quadrados de praia, número que caiu para 151 após as manchas e que, em julho, estava em 74, o que significa uma perda de 83% em menos de um ano.

Outro aspecto analisado foi o do adoecimento dos corais. Enquanto nos anos anteriores, a média anual era de 5% a 6%, ele chegou a 51% em outubro passado e a 85% atualmente.

“O óleo chegou bem na estação reprodutiva da maioria dos organismos marinhos. Ele chegou, teve um impacto significativo e matou muito organismo na época, teve essa perda de densidade imediata”, explica o professor.

Nesse cenário, a presença ainda persistente do óleo torna a situação mais preocupante. Por ser denso, ele não flutuava quando chegou e, portanto, costumava ser visto apenas próximo da costa e principalmente durante o dia. Isto é, tinha a identificação mais difícil à noite e em locais desertos, podendo ser naturalmente soterrado antes de ser percebido.

Em 2019, por exemplo, a equipe do Estadão presenciou um pescador e uma família desenterrando óleo abaixo da camada mais superficial da faixa de areia na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, horas após o encerramento das atividades de retirada. “Muito pesado, ele acaba soterrado pela areia e por outros sedimentos do mar”, aponta Kelmo.

O que temos hoje são manchas de óleo enterradas. Não importa o tempo, enquanto esse tóxico estiver no ambiente, estará envenenando os organismos pouco a pouco”, reitera. “Um agente químico diferenciado atingiu uma dimensão imensa do nosso litoral, não foi retirado na sua integridade e continua prejudicando ao longo deste ano.”

Ele destaca que esses efeitos ainda se somam a outros fenômenos, como as mudanças climáticas, o aquecimento das águas, o despejo de esgoto doméstico e o descarte inadequado de lixo, dentre outros problemas. “Houve sim uma perda significativa de patrimônio natural, perdemos biodiversidade, principalmente na base da cadeia alimentar, no que serve de alimento para organismos maiores”, destaca.

“No momento em que somem (seres vivos de menor porte) ou a quantidade é pequena, os organismos maiores começam a passar fome. E, para isso, somente há duas opções: ou morrer de fome ou, se têm a capacidade de locomoção para grandes distâncias, nadar para outra área com alimento disponível. O problema é que praticamente toda a costa nordeste foi atingida.”

Coordenador do Laboratório de Ecotoxicologia Aquática (Labecotox) da UFPE, o professor Paulo Carvalho lembra que os Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos (HPA) do óleo foram encontrados na bile de peixes de áreas atingidas após o derramamento. Isso não significa, reitera ele, que não haja segurança no consumo do pescado, avaliação que precisa ser focada na musculatura.

Em laboratório, a equipe do professor fez simulações para identificar os efeitos da concentração da substância. “Foram bastante dramáticos, principalmente na fase embriolarval“, comenta. “Os HPAs são cardiotóxicos para as fases iniciais de vida, com efeitos na formação e no coração das larvinhas, depende da dose a que estão expostos no ambiente”, completa.

“A presença da molécula pode danificar os tecidos internos, que estão se formando na fase do ovo para a larva. Ou seja, futuramente, ele pode não conseguir se locomover, procurar suas presas, crescer, reproduzir-se.”

‘Provável que (óleo) permaneça no ambiente por um longo período se não for coletado’, diz documento do Ibama

Em cartilha, o Ibama aponta que o óleo que apareceu na costa brasileira é pesado e denso e que, portanto, pode “afundar ao encontrar água salobra ou se misturado com a areia e outros materiais” e que tem “potencial de sufocação física de organismos marinhos que entrarem em contato direto”.

O material diz que a classificação de “ponto de término”, admite a permanência do óleo em “locais ambientalmente sensíveis”, como os manguezais. “O pisoteio do substrato, inevitável durante a atividade de limpeza ativa, provocaria uma maior penetração do óleo no sedimento, trazendo danos ainda maiores ao ecossistema”, admite.

Outro material elaborado pelo Ibama aponta que é “altamente provável” que o resíduo continue chegando à costa em baixas concentrações e que, portanto, é necessário um “procedimento eficaz de vigilância e que seja mantida a capacidade de resposta”. “O óleo é persistente, ou seja, é provável que permaneça no ambiente por um longo período se não for coletado.”

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